A Microsoft ofereceu saída voluntária a cerca de 60 mil funcionários na segunda-feira, dia 26 de outubro, ao mesmo tempo em que acelera o maior programa de investimento da sua história. É o retrato mais claro do dilema da era da IA: empresas que crescem, lucram e, mesmo assim, trocam gente por máquinas.
O programa atinge quase um quarto da força de trabalho, em Estados Unidos, Canadá, Índia e Reino Unido. Os funcionários têm até o início de dezembro para decidir, e quem aceitar sai ainda em dezembro. A empresa descreveu a oferta como voluntária, em um memorando interno da diretora de pessoal, Amy Coleman.
A Microsoft não está encolhendo porque está mal
No trimestre encerrado em junho, a receita da Microsoft cresceu 18% e chegou a $90 bilhões. O lucro ajustado por ação foi de $4,74, mais de 12% acima do esperado pelo mercado. O Azure, a plataforma de nuvem, cresceu 43% no período e passou de $100 bilhões de receita anual pela primeira vez. São mais de 30 milhões de assinantes pagos do Copilot.
A carteira de contratos futuros chegou a $678 bilhões, com crescimento de 84%. Só que esse número pede uma segunda leitura. Sem a OpenAI, o crescimento da carteira cai para 25%. Ou seja, parte relevante da demanda futura contratada depende de poucos clientes.
O gasto com IA da Microsoft e o caixa que encolhe
O outro lado da história é a conta da construção. A Microsoft abriu 31 data centers novos em um único trimestre. No trimestre de junho, gastou $41 bilhões em investimento em infraestrutura, incluindo arrendamentos. Para 2026, a previsão é de cerca de $175 bilhões.
Enquanto o lucro contábil cresce, o dinheiro que sobra depois de pagar essa construção encolhe. O caixa livre do trimestre de junho ficou em $19,6 bilhões, queda de 23% em relação ao ano anterior. É o ponto central do debate sobre a Microsoft: a nuvem cresce rápido, mas cada ponto de crescimento está custando mais caro.
O mesmo debate cerca todo o ciclo de investimento em IA, que também aparece em outras empresas de infraestrutura do setor.
O teste do balanço de 28 de outubro
Nesta quarta-feira, dia 28 de outubro, a Microsoft divulga o balanço do trimestre de setembro, o primeiro do ano fiscal de 2027. O mercado espera receita perto de $90,6 bilhões e lucro de $4,71 por ação, contra $4,13 um ano antes.
Mas o teste de verdade está em três números, não nos dois do consenso. O crescimento do Azure, que a empresa prometeu em cerca de 45% em moeda constante. O investimento do trimestre, previsto acima de $50 bilhões. E o caixa livre, a ser comparado com os $19,6 bilhões do trimestre anterior.
Se o Azure bater a meta e o caixa livre segurar, a construção está se pagando. Se o investimento subir e o caixa livre encolher de novo, a conta está crescendo mais rápido que o retorno. A ação fechou a segunda-feira perto de $533, poucos por cento abaixo da máxima dos últimos 12 meses. O mercado já cobra a história completa.
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