As ações da Alphabet, dona do Google, caíam cerca de 10% no pré-mercado desta quinta-feira (29). Na quarta (28), depois do fechamento, a empresa divulgou o balanço do terceiro trimestre de 2026. A receita e o lucro ficaram abaixo do esperado pelos analistas, algo que não acontecia havia quase quatro anos.
Segundo a CNBC, se a queda passar de 9,77% no fechamento, será a pior reação a um balanço desde que a empresa abriu capital, em 2004. O motivo principal não está na inteligência artificial em si. Está no negócio que paga por ela.
O balanço da Alphabet no 3T26
O destaque positivo foi a Google Cloud, a divisão de nuvem. A receita mais que dobrou em relação ao ano passado, puxada pela demanda de empresas e laboratórios de IA e pela venda dos chips próprios do Google, os TPUs. Foi a única grande área que veio acima do esperado.
O problema apareceu na busca, a maior fonte de receita da empresa. Ela cresceu 12%, contra 17% no trimestre anterior, e ficou abaixo das projeções. A publicidade como um todo também decepcionou.
Ao mesmo tempo, a conta da IA continua subindo. O fluxo de caixa livre, o dinheiro que sobra depois dos investimentos, ficou negativo pelo segundo trimestre seguido. Até o trimestre anterior, isso nunca tinha acontecido nos 22 anos da Alphabet na bolsa. E a diretora financeira, Anat Ashkenazi, disse que o investimento em data centers deve aumentar bastante em 2027.
Por que a busca da Alphabet desacelerou
A empresa deu três explicações. A primeira foi o câmbio, que segundo o diretor de negócios Philipp Schindler foi o maior fator. A segunda, anunciantes da Ásia afetados por uma mudança de regra na Europa. A terceira, a comparação com um segundo trimestre forte, inflado pelos anúncios da Copa do Mundo.
Esses três motivos têm algo em comum: tendem a passar.
Mas Schindler citou um quarto ponto. O AI Mode, a versão da busca do Google com respostas de IA, tem menos anúncios e, por isso, ganha menos dinheiro por pesquisa. O Google diz que já está ampliando os anúncios no AI Mode, inclusive fora dos Estados Unidos. Ainda assim, esse é um motivo que pode ficar.
O critério: separar o motivo que passa do motivo que fica
O movimento vale para qualquer balanço em que a empresa explica uma desaceleração. Liste os motivos dados pela diretoria. Depois, separe os passageiros, como câmbio, evento esportivo ou uma comparação difícil, dos estruturais, como uma mudança no jeito de o cliente usar o produto.
No caso da Alphabet, a resposta pesa no valuation. A busca é o negócio que financia a construção da IA. Se a desaceleração for passageira, a conta fecha com folga. Se a própria IA estiver reduzindo quanto a busca rende, a empresa estaria pagando a obra com uma fonte que encolhe.
A mesma pergunta sobre gastar hoje para colher amanhã apareceu aqui na análise da Meta, que também terminou o trimestre com caixa livre negativo.
A pergunta que importa: a queda da Alphabet é o mercado exagerando um trimestre ruim ou o primeiro sinal de que a IA está mordendo a galinha dos ovos de ouro?
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