As ações da American Express caíram 3,68% na sexta-feira (23) e fecharam a $313,22, no mesmo dia em que a empresa divulgou um lucro por ação 31% maior no terceiro trimestre de 2026. A aparente contradição se explica por um item que não faz parte da operação: a venda da participação da Amex na Global Business Travel Group, um ganho que inflou o resultado e não se repete. No mesmo balanço, a companhia anunciou o corte de cerca de 5% dos funcionários para se preparar para a inteligência artificial.
O balanço da American Express no 3T26
A American Express, dona do cartão Platinum, reportou receita recorde de $20,06 bilhões no trimestre, alta de 9% sobre o ano anterior, ligeiramente abaixo dos $20,12 bilhões esperados pelos analistas. O lucro por ação reportado foi de $5,42, alta de 31%. O volume gasto pelos clientes nos cartões somou $454 bilhões, 8% a mais, com gastos em viagens e entretenimento crescendo 10%.
As anuidades, a linha de receita que mais cresce na empresa, avançaram 17% com câmbio ajustado, puxadas pela renovação do Platinum nos Estados Unidos. Segundo a companhia, 99% do gasto dos clientes do Platinum foi mantido um ano depois do aumento da anuidade, e 76% dos 3,1 milhões de novos cartões do trimestre são produtos pagos. A inadimplência seguiu em 1,3%, dentro da faixa de 1,2% a 1,3% dos últimos 15 trimestres.
O lucro, porém, veio inflado por um item não recorrente. A venda da participação na Global Business Travel gerou um ganho de $1,11 por ação. A empresa usou parte desse dinheiro para bancar uma reestruturação de $336 milhões, equivalente a $0,37 por ação, que prevê a eliminação de cerca de 3.500 vagas, ou 5% do quadro global. O diretor financeiro, Christophe Le Caillec, disse à CNBC que o objetivo é deixar a Amex "mais enxuta, mais ágil e preparada para a IA". O movimento acompanha o setor: o Barclays confirmou na quinta-feira o corte de 5 mil vagas. Descontados o ganho e a reestruturação, o lucro ajustado foi de $4,68 por ação, alta de 13% e acima dos $4,48 esperados pelo consenso.
Para 2026, a Amex passou a projetar lucro por ação reportado entre $18,30 e $18,60. Sem o ganho único, a faixa ajustada é de $17,60 a $17,90, contra $17,30 a $17,90 antes. A receita do ano segue projetada em alta de cerca de 10%.
A conta do lucro recorrente: tirar o ganho único
A conta para separar o que se repete do que não se repete é simples. Primeiro, calcule o ganho líquido do evento único: $1,11 do ganho com a venda menos $0,37 da reestruturação dá $0,74 por ação. Depois, subtraia esse valor do lucro reportado: $5,42 menos $0,74 dá os $4,68 do lucro ajustado. Por fim, divida o ganho líquido pelo lucro reportado: $0,74 ÷ $5,42 mostra que quase 14% do lucro por ação do trimestre veio de um evento que não volta.
A mesma conta vale para o guidance. No ponto médio, a projeção da manchete para 2026 sobe cerca de 4,8% em relação à faixa anterior; a ajustada, menos de 1%. Só o piso da projeção recorrente subiu. E é sobre o lucro recorrente que faz sentido medir o preço: a $313,22, a ação da Amex negocia a cerca de 17,6 vezes o ponto médio do lucro ajustado projetado para 2026.
O movimento vale para qualquer balanço: quando o lucro salta, procure no release a linha de resultado ajustado e a explicação dos itens excluídos. Venda de participação, ganho contábil e reversão de provisão não se repetem, e despesa única também não. O que define o valor de uma empresa é o lucro que volta todo trimestre. A pergunta que fica é se a queda de sexta reflete pessimismo exagerado com os custos e o corte de vagas, ou apenas o mercado descontando um lucro que nunca foi recorrente.
O efeito contrário apareceu nesta semana no balanço da Intuitive Surgical: lá, uma despesa única derrubou o lucro reportado. Nos dois casos, a leitura correta passa por separar o que é recorrente do que não é.
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